Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ossapossabembeijar?

Um canto despretensioso que fala de nada e de pouco ... mas onde se pode sentar tranquilamente e não pensar! Um pedaço onde vale a pena esperar ... por "porra" nenhuma ...

Um canto despretensioso que fala de nada e de pouco ... mas onde se pode sentar tranquilamente e não pensar! Um pedaço onde vale a pena esperar ... por "porra" nenhuma ...

03
Jan20

#214 | Desafio da escrita dos pássaros #16

ossapossabembeijar

Só estou bem aonde não estou …


O meu tio Jacinto reformou-se o ano passado.

A vida não foi lhe simpática. A escola correu por entre as horas vagas do campo. Primeiro o gado, as sementeiras e as colheitas, a feira semanal e tudo aquilo que quem fez do campo lar conhece. Só depois as letras e os números.

Os primeiros traumas chegaram com a guerra. Com 19 anos, Salazar acampado no poder, saiu da metrópole para viver a brutalidade da guerra nos solos e na humidade da Guiné. Deixou os pais em sobressalto e a namorada a rezar pelas noites dentro. Viu colegas a morrerem ao lado e acompanhou estropiados até ao barco que os trouxe de volta com o destino amarfalhado em nome da pátria, atraiçoados por algo que não sabiam bem o que era ou o que representava.

O regresso foi cruel. Vinha diferente, demasiado desconhecido. Até para ele. Ainda assim, a Rosa, muito receosa, não se escondeu e convenceu-o a construírem uma vida conjunta. Embora, por muitas vezes, se sentisse sozinha a lutar por sonhos que, nem sempre, eram de ambos.

A primeira filha, a Conceição, assistiu ao casamento alojada no ventre. Os outros apareceram com os invernos. Todos companheiros na travessia do tempo.

Empregou-se no comércio. As vidas dos clientes atenuavam-lhe os sonhos nas noites de pavor. Começou a esquecer-se. Apenas a rasgos recordava sons e cheiros e os sabores das africanas que muitos pensamentos e tremores lhe aliviaram pelas selvas distantes de Bissau.

Enquanto isso a Rosa suava numa fábrica têxtil, onde tecia panos em teares gastos. Os filhos secavam-lhe as dores enquanto atava os fios que se rompiam pela ação da lançadeira, ainda de madeira.

A sorte surgiu quando o Gervásio o desafiou a caminharem serras fora. Aprendeu uma língua diferente, numa profissão em que memorizou os gestos, afundado num buraco que não se distinguia do estábulo dos animais dos tempos de escola.

No verão seguinte fazia-se acompanhar pela Rosa e os filhos quando cruzou Vilar Formoso e olhou para trás.

Empenharam couro e suor, enquanto sonhavam numa barraca, mais uma num bidonville triste, algures nos arredores de Paris. Muitas noites deitaram-se com um caldo quente, depois de cozinharem para os filhos que os preocupavam pelos amigos a que se juntavam.

Aos poucos os suores retornaram silenciosamente pelo escuro. E, sem surpresas, soube que tinha que abalar.

O Inocêncio, num julho onde o fogo não deu descanso, trespassou-lhe o espaço. (1)

Foi o justificar do retorno ao ventre da mãe terra.

O percurso de operário da Peugeot a taberneiro foi célere, mas não foi fácil. Ainda assim, esforçou-se. Dedicou-se, envolveram-se todos, para que o arrependimento não se intrometesse nos seus silêncios. Por vezes apaziguadores. Muitas vezes não.

Com o negócio a correr melhor, a dar para mais do que a sopa, conseguiu fazer a vida um pouco mais meiga para os filhos. Mesmo que meiguice não tenha abundado pela sua pele e alma. Exceto quando as mulheres africanas, que frequentemente ainda lhe toldavam a imaginação, o faziam sonhar com as noites distantes mas sufocantes.

Nunca foi religioso até porque, tal como a pátria, não sabe bem o que isso representa. Deus, talvez demasiado ocupado, não se cruzou com ele. Ele, demasiado cansado, não se esforçou para o encontrar. Mas tirava um dia por ano para uma incursão a Fátima, onde incluía um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, uma doação nas esmolas e uma vela a queimar no velário que, por vezes, se assemelhava a um dragão a expelir fogo. Mais fumo que fogo, mas pronto. Não tinha a certeza se seria do leitão e do espumante tinto da Bairrada, mas o regresso era sempre melhor.

Mas, como tudo, cansou-se das semanas de 365 dias. Das longas noites que teimavam em repetir-se. Das refeições interrompidas e das sestas onde não se envolveu. Das festas que não comemorou. Das férias que reviu nas fotos dos outros. Dos anos que não sentiu o virar do calendário, dos escuteiros da freguesia, pendurado atrás do balcão de inox.

E também se fartou das malditas ambições que, com vontade própria, esticavam sempre que as alcançavam. Mesmo que a vida, ressentindo-se, não o sentisse ...

E, foi assim, que o meu tio Jacinto resolveu poisar a vida e as ambições em descanso. E aguardar (em pânico como se confessa nos seus silêncios cada vez mais frequentes) por algo ou alguém que o irá conduzir para onde o quiserem. De preferência sem dor. Ou pelo menos enquanto sonha com a macieza da pele quente de uma negra na sua, fria e excessivamente áspera.

Atenua o medo navegando, pela internet, a mais recente descoberta, pelo café, que já foi dele, ou pelas ruas empedradas, da vida que passam em sprint. Esquece os sonhos que não teve, arrastando os pés por caminhos que parecem não ter sentido ou direção, embaralhando as cartas com as mãos gastas à procura do ás de trunfo, saltitando entre imagens que não reconhece, umas e outras sempre com o olhar distante e perdido. Muitas vezes vazio.

Porque a vida não foi lhe simpática. A ele e a muitos outros.

Por causa de um desafio dos pássaros, que parece desesperadamente interminável, fi-lo refletir sobre o seu tempo e o seu espaço. Um silêncio depois disse-me com a voz subtilmente arrastada:

Sou mais velho que o tempo e estendo-me para além do espaço que imaginamos!”.

E suspirando concluiu:

Mas sei que só estou bem aonde não estou e só quero ir aonde não vou”.

E veio-me à memória o António que mora em cada um de nós ... (2)

 

 

Notas do sapo:
(1) Atingiram-se aqui as 400 palavras. A responsabilidade de continuar a ler este texto a partir daqui é exclusivamente sua. A gerência do espaço não se responsabiliza pelos danos que essa leitura adicional lhe possam causar, hoje ou no futuro
(2) https://www.youtube.com/watch?v=B_Ij425SMcA

30
Dez19

#210 | Segunda-feira ... dia de signos

ossapossabembeijar

Os segredos sexuais de cada signo ...

A intimidade é influenciada pelos astros???
Venham ler .
..

Aquário – A originalidade característica deste signo é também bem explícita entre lençóis, onde se aborrece com a rotina e procura explorar sempre novas posições, novos locais e horas. Para os Aquários a espontaneidade é a lei do desejo, e procura que o par acompanhe o seu ritmo imprevisível, direto, sem tabus nem rodeios. Beijos nas orelhas e no pescoço fazem as suas delícias.

 Peixes– Para a sua apurada sensibilidade é inconcebível haver sexo sem amor. O envolvimento afetivo com a outra pessoa é a própria essência do seu prazer, pois para eles o sexo é visto como uma experiência quase transcendental, de comunhão com o outro. Anseiam encontrar a alma-gémea e viver um verdadeiro conto-de-fadas. Fazer amor num local com água – piscina, rio, lago – inundam o coração de prazer e trazem mil sensações aos seus sentidos.

Carneiro – Não tem medo de mostrar os seus desejos na cama, e a sua impetuosidade pode até, por vezes, assustar o par. Gostam de assumir o papel de comando, de ousar e experimentar coisas novas. A adrenalina de uma “rapidinha” pode ser um poderoso afrodisíaco para este signo tão sexual. A emoção do perigo e o contacto com a Natureza excitam-o. Carícias na nuca levam-nos ao êxtase.

 Touro– Não se mostram facilmente, mas quando sentem confiança no par demonstram uma forte sensualidade e um vigor sexual difícil de acompanhar. Apreciam preliminares carinhosos e demorados, gostam de fazer amor sem pressa e num ambiente seguro e confortável. Incluir chocolate, leite condensado, gelo ou outro alimento na relação sexual deixa-os literalmente com água na boca.

 Gémeos– A criatividade é o mais poderoso afrodisíaco para quem nasceu sob este signo. Precisam de variar de posição e de local e que espicacem a sua libido, pois a rotina aborrece-os, tornando-os frios e indiferentes. Têm particular sensibilidade nas mãos, nas costas e nas orelhas. Sussurrar palavras picantes ao ouvido deixa-os quase sempre em brasa.

Caranguejo Precisam de ter segurança para se entregarem sexualmente mas quando sentem que são amados o mostram uma faceta capaz de surpreender verdadeiramente, entregando-se de corpo e alma à relação sexual. Precisam, no entanto, de mimo constante, pois se sentem que o par não retribui na mesma medida sentem-se magoados e tristes. O peito e a barriga são zonas particularmente erógenas, e as carícias nestas partes do corpo fazem-nos estremecer por completo.

Leão O domínio excita-os, e sentirem que o par está completamente rendido aos seus pés é uma das suas fantasias eróticas mais recorrentes. Os elogios estimulam-nos, fazendo com que se empenhem ao máximo para deixarem uma impressão inesquecível. Embora esbanjem sensualidade e erotismo, não dispensam o romantismo. Um quarto cheio de espelhos, lençóis de cetim ou uma banheira com espuma perfumada e duas taças de champanhe são capazes de levá-los ao sétimo céu.

Virgem– Sob a sua postura tranquila e discreta, escondem um poderoso vulcão sexual, que entra em erupção quando sentem segurança na relação e confiam na pessoa com quem se relacionam. Derrubar as barreiras que a personalidade cria pode levar tempo e exigir dedicação do par, mas são capazes de se revelarem amantes extremamente sensuais e intensos. Nem sempre têm coragem de revelar as suas fantasias, mas mantêm o secreto desejo de experimentarem as loucuras mais improváveis. Uma cama perfumada com lençóis recém-lavados inebria os seus sentidos, e um banho partilhado a dois deixa-os com as emoções lá em cima.

Balança– O romantismo e a delicadeza fazem parte do charme inconfundível. Embora sejam sensuais por natureza, precisam de se sentirem envolvidos emocionalmente para se envolverem a nível sexual, e não se entregam com facilidade. Apreciam longos preliminares cheios de requinte e atenção. Todos os jogos de sedução e conquista são poderosos afrodisíacos, desde que sejam refinados e elegantes. Um hotel de cinco estrelas ou um quarto com vista sobre o mar são locais que os podem levar no paraíso.

Escorpião – Sob a influência de Plutão, este é um dos signos mais eróticos do Zodíaco. Intensos, provocadores e ousados, encaram a relação sexual como uma experiência metafísica, na qual procuram sempre ultrapassar os seus próprios limites. Com mentes ardilosas, capazes de incendiar o desejo do mais gélido dos parceiros amorosos, os Escorpiões mostram-se impetuosos e nunca aceitam um “não” como resposta. Experimentar tudo, fazer tudo, em toda e qualquer parte, porque para eles não há limites no prazer.

Sagitário Para estes, a variedade é sem duvida o sal da relação. Gostam de experimentar todas as posições, mas têm um certo fraquinho por sexo ao ar livre, em locais inesperados ou proibidos, e gostam particularmente de fazer amor em pé. Têm uma energia aparentemente inesgotável, mas se sentem que a relação está morna são capazes de se mostrarem frios e desprendidos. A adrenalina é um dos mais potentes combustíveis para alimentarem o desejo, e fazerem amor numa situação que envolva um certo risco incendeia-os.

Capricórnio - Dentro de quatro paredes, num local confortável e afastado dos olhares indiscretos, despem a sua postura séria e recatada e revelam a fera que existe dentro deles. Gostam de assumir o comando na relação sexual, e sentem-se inebriados pelos ambientes luxuosos, pelos fetiches com pormenores requintados, e quando sentem o fascínio que exercem sobre o par. Nem sempre se sentem à vontade para revelar as suas fantasias, mas não hesitam em dar forma às ideias que o parceiro lhes sugerir.

 

Deve haver partes que gostamos,
outras não nos revemos, 
e está muito incompleto ... 

Mas gostamos de ler ... 

23
Dez19

#207 | O meu con(ti)to de Natal ...

ossapossabembeijar

Um rafeiro perdido pelo Natal!!!

- “Estão a bater à porta”, disse a Inês da cozinha enquanto deitava água no bule para fazer chá de mentol.

Abri a porta e vi a D. Aurora de guarda-chuva na mão, molhada e a pingar. Sorri-lhe e disse-lhe “Boa noite Dona Aurora, saia da chuva e do frio, entre por favor”.

- “Desculpe doutor, mas o meu cãozinho desapareceu no meio desta tempestade”, disse enquanto fechava o guarda-chuva e entrava em casa.

A D. Aurora é a nossa vizinha. Mora na casa ao lado e conhecemo-la quando há 3 meses decidimos vir morar para esta pacata terreola e esta deliciosa rua de cheiros e sabores vários.

Levei-a para a sala, aquecida pela lareira e pelo riso dos miúdos e dos seus jogos, ao mesmo tempo que a Inês se juntava vinda da cozinha carregando um tabuleiro com o bule do chá, várias chávenas e um prato com biscoitos de manteiga.

- “Está toda molhada, vou buscar uma toalha e um cobertor para se aquecer”, disse a Inês enquanto subia as escadas de madeira rumo aos quartos.

- “Sente-se à lareira”, disse-lhe, enquanto a ajudava a sentar-se no sofá mais próximo, sob o olhar curioso dos miúdos.

Uma tolha, um cobertor e um chá depois, a D. Aurora entre lágrimas contou-nos que o Rafeiro, era mesmo esse o nome do seu cão de companhia, tinha fugido assustado com o barulho do vento e da chuva intensa, terminando com o "Valha-nos Nossa Senhora de Fátima". 

É uma viúva simpática e os filhos perderam-se pelo mundo. A filha mais velha ainda vem pelo verão visitá-la e traz os netos com ela. O filho do meio e a filha mais nova não os vê há mais de dois anos. Acha que estão bem, porque a mais velha, com grande insistência sua, lhe vai contando algumas coisas sobre os irmãos, nos curtos telefonemas, cada vez mais espaçados, de domingo ao final da tarde.

- “Aquele bicho é a minha companhia senhora doutora. Eu falo com ele e parece que entende e me responde”, disse entre lágrimas.

- “Não se preocupe que ele regressa a casa, porque sabe onde vive”, disse a Inês tentando animá-la.

- “Ai meu Deus, que vai ser do bichinho e de mim sozinha”, disse em pranto, "E logo agora. Ele que é perdido pelo Natal. Adora o bacalhau, as couves, os doces. O bolo-rei e o pudim devora. É o período do ano que mais gosta e sabe que estamos na véspera da consoada", acrescentou.

Olhei-a e levantando-me disse-lhe "Descanse Dona Aurora que vou procurá-lo pela freguesia, mas fique aqui. Está acompanhada e no quentinho. Eu volto já".

O olhar dos miúdos e da Inês não deixava dúvidas pelo medo que aquela minha decisão lhes estava a provocar.

Vivíamos juntos há mais de um ano. A Inês também era viúva e tinha uma filha de 3 anos que era um doce. Já eu, divorciado, pai a tempo inteiro de um miúdo de 4 anos, porque a mãe não quis ficar com a guarda, nem sequer partilhada. Fomos casados 4 anos e fui surpreendido (mesmo!!) quando fugiu para o Brasil com o meu sócio do escritório de advogados (colega de faculdade e padrinho de casamento), onde, segundo sei pelos avós maternos que ainda convivem com o neto, vivem afastados de tudo. Andei perdido neste drama por alguns anos. Demasiados mesmo.

- “Ai senhor doutor, não é arriscado?”, perguntou a D. Aurora com um olhar de súplica e de preocupação, enquanto eu, que sorria para os tranquilizar, dizia-lhe "Não, só vou dar uma volta pelas ruas".

Apesar do risco, só me vinha à memória o Rafeiro a abanar a cauda, pendurado no portão da casa, a ver-me ir buscar o pão pela manhã à mercearia da Glorinha. Gestos que repetia no regresso.

Vesti-me com roupa mais quente, cachecol, gorro, galochas e impermeável, e caminhei para a porta de casa.

Sorrindo entrei na chuva embalado pelo vento. Apesar do ruído ainda ouvi a Inês a dizer-me “Tem cuidado João”. No portão olhei para trás vi os olhares de receio que perpassavam pela minha família e percebi que não me podia aventurar em demasia. Afinal, quase 3 anos depois da fossa onde de repente me descobri, voltava a ter uma família. E amar sem receios.

O vento era assustador. As rajadas, que quase faziam tombar as árvores, arrastavam pedaços de ramos e folhas. A chuva virada ao vento golpeava-me a cara e as mãos. Não havia ninguém na rua, nem sequer à janela. Estava sozinho e enquanto caminhava pelo empedrado das ruas, sem me preocupar com os charcos e os regos de água que se formavam, apercebi-me que trazia pensamentos comigo.

Estávamos a 23 de dezembro e este Natal ia ser diferente. Era o nosso primeiro Natal juntos. Éramos uma família em construção. A aprender a viverem juntos. Contrariado tinha alinhado na surpresa para a Luísa e o Tiago. Pela primeira vez ia vestir-me de Pai Natal e fazer a entrega das prendas lá em casa. E estava preocupado. Queria que tudo corresse bem como planeado e ser o Pai Natal da nossa casa. Mas a Inês, que ria dos meus medos, estava feliz. E eu, que também estava feliz, ficava ainda mais por ela também o sentir. Estávamos todos imbuídos de um espírito que nos deixava sem fôlego de tanta emoção que sentíamos.

Levava uma lanterna potente que usava para me ir iluminando o caminho. Não havia luz nas ruas. Devia ter sido algum curto-circuito provocado pela tempestade, pensei.

Não parava de gritar “Rafeiroooooooo” mesmo sabendo que adiantava pouco ou nada. O vento não estava de feição nem com vontade de ser prestável. Até a chuva, que continuava a golpear-me, ajudava o vento a abafar-me. Não davam tréguas. Ainda assim gritava e fazia movimentos com a lanterna, em direção às casas e aos campos. “Rafeiroooooooo ... Rafeirooooooooooooo”.

Tinha conhecido a Inês num supermercado da cidade. Por instantes (pareceram a ambos longos minutos como acabamos por confessar mais tarde) ficamos suspensos nos olhos um do outro. Parecia que o mundo se tinha tornado transparente. Por instantes o tempo tinha congelado. Despertei quando a vi sorrir. De olhos abertos ou fechados só me surgia a forma e a cor dos seus olhos. E do sorriso. Voltei a cruzar os olhos com os dela, uns dias mais tarde, numa esplanada onde não havia mais lugares livres e me atrevi a perguntar se me podia sentar para tomar um café. Ainda bem que fui ter com o meu cliente ao hospital, onde acabei por descobrir que também era ali que ela trabalhava. Foi o princípio do fim do meu trauma. Ou seria do meu drama?

Estava molhado, gelado e exausto. Mas essa lembrança fez-me avançar para percorrer, pela terceira vez, as ruas. Consegui ouvi um ruído forte. Era uma panela velha que saltitava arrastada pela força do vento. Com a panela e um pau de cerejeira, passei a acompanhar o chamamento com ruídos ritmados que fazia na base do tacho. “Rafeiroooooooo ... Tum-tum-tummm ... Rafeirooooooooooooo ...Tum-tum-tummm". Com a lanterna, presa entre o braço esquerdo e o tronco, balouçava lançando raios de luz aleatórios que, sabia eu, não ultrapassavam as grossas pingas da chuva e eram, certamente, desviados do seu curso pelos golpes do vento. 

Empenhado na tarefa, apercebo-me de uma sombra que caminha timida e vagarosamente na minha direção. Agarrei a lanterna com a mão e vi o Rafeiro. E, como sempre o fazia, vinha a abanar a cauda. Mas menos efusivo. Estava molhado e a tremia de frio. Tirei o cachecol e enrolei-o. Peguei nele e encaixei-o dentro do meu impermeável.

Larguei a panela e o pau na berma do campo e fiz o caminho de regresso. Acho até que esqueci a chuva e o vento. Tinha um sorriso enorme estampado no rosto. E estava tremendamente feliz.

Não me sentia um herói quando me abriram a porta e viram o Rafeiro com a cabeça de fora do meu kispo.

Assim que a viu, saltou e foi a correr ladrando para o colo da D. Aurora que não escondia a felicidade.

- “Salvou-me o Natal ... e a vida senhor doutor”, repetia a soluçar, com as lágrimas a escorrerem pelas rugas da vida cravadas na face, enquanto se abraçava ao Rafeiro e aceitava as suas lambidelas pela cara que lhe fizeram recuperar a cor e o sorriso.

- “És o Pai Natal”, disse a Inês enquanto me beijava de forma carinhosa o sorriso que ainda tinha colado nos lábios, e sentia a Luísa e o Tiago, felizes, a enrolarem-se nas minhas pernas ... E foi mesmo aí que me senti um pouco herói ... um pedaço do nosso Pai Natal ...

Bom Natal Rafeiro !
 Feliz Natal gente !!! 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D